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Criança Feliz? Nem sempre...

Os primeiros sintomas depressivos de que se tem registro são oriundos dos egípcios, por volta de 2.600 a .C. Crianças depressivas, entretanto, só são mencionadas em 1621. Dessa época em diante, numerosos trabalhos foram publicados a favor e contra a validade da suposição de quadros depressivos na infância e, por acreditar-se que, tendo uma estrutura de personalidade imatura, a criança não teria ingresso ao emocional, esteve a psiquiatria infantil relegada e obscurecida.

O aparente final de uma era de dúvidas e questionamentos, relacionados aos transtornos depressivos na infância, ocorreu durante o IV Congresso da União dos Psiquiatras Europeus, realizado em Estocolmo, Suécia, em 1970. O tema era: “Estados Depressivos na Infância e na Adolescência”.

Quando mencionamos depressão na infância, estamos falando de um entre dois tipos principais:

1. Reação a circunstâncias ambientais

2. Transtorno bioquímico cerebral.


Em ambos, as manifestações clínicas variam grandemente com a característica do quadro, com a idade — pré-verbal, pré-escolar, escolar e pré-adolescência — e com a sofisticação verbal e psicológica da criança.


1. Reação a circunstâncias ambientais:

  • problemas sérios entre os pais, divórcio ou morte deles
  • doença crônica que limite as atividades físicas / sociais da criança
  • violências ou carências  emocionais e / ou físicas
  • transtornos decorrentes dos períodos de desenvolvimento da criança

São ocasionais e manifestam-se por vários sintomas e queixas somáticas:transtornos do sono, da alimentação, enurese noturna persistente, dores de cabeça, abdominais e musculares difusas, alergias, problemas respiratórios, infecções repetitivas, recusa de ir à escola, baixo rendimento escolar, rebeldia.

2. Transtorno bioquímico cerebral

  • É mais grave e mais persistente e pode ter repercussões por toda a vida. Adultos com Depressão Maior referem sintomas depressivos desde a infância.

Suas manifestações incluem: mutismo, apatia ou hiperatividade, que são  considerados componentes psicomotores da depressão, baixo nível de sociabilidade, resultando em isolamento, sentimento de solidão, de rejeição, comportamento irritadiço, hipersensível, negativista, queixoso, hostil, além de choro fácil, aparentemente imotivado e permanente infelicidade.

  • A criança deprimida carrega consigo sentimentos autodepreciativos, como sensação de ser feia, desajeitada, incapaz e um grande sentimento de culpa.
  • A culpa pode levá-la a reações autopunitivas. Sente-se má e experimenta desejo de morte, pensamentos suicidas, chegando a tentativas de auto-extermínio. São comuns as intoxicações acidentais, os politraumatismos e as diversas formas de autoexposição ao perigo.
  • O componente autodestrutivo subjacente a essas ocorrências reincidentes são reconhecíveis pela família, pelos educadores e pelos profissionais de saúde.
  • Há alguns anos, essa possibilidade era amplamente considerada como fantasiosa e impossível. Avolumam-se, todavia, já há algum tempo, trabalhos sérios, em todo o mundo, que a confirmam.

O reconhecimento dos sintomas depressivos é de grande importância para pais, mestres e profissionais de saúde porque conduz à possível resolução da depressão que a criança esteja enfrentando.

Quando pais e professores não se dão conta do problema podem ter uma atuação prejudicial por fazerem críticas e comparações descabidas, reagindo hostilmente contra a criança, o que reduz ainda mais a sua autoestima, reforça sua autodesvalorização e a sensação de rejeição.

O profissional de saúde pesquisará a possível ocorrência de outros quadros clínicos simultâneos que produzem sintomas depressivos:

  • alterações endócrinas,
  • infecções, anemia, doenças autoimunes,
  • traumas cranianos, tumores do sistema nervoso central,
  • uso abusivo de medicamentos ou de drogas, álcool, por exemplo,
  • e de outros transtornos psiquiátricos.

O tratamento da criança deprimida é complexo, dependendo do tipo e da gravidade, mas terá pleno êxito se bem conduzido.


Elimar Jacob Salzer Rodrigues
Médica – Psiquiatra
Especialização e Mestrado pela UFRJ

 

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quinta-feira, 9 de setembro de 2010