Na esteira do processo que introduziu a mulher no mercado de trabalho, o pai atual assiste à ruptura progressiva do modelo patriarcal antecedente. O padrão de família baseado na hierarquia, regido pela severidade de princípios, vem sendo rapidamente substituído por formas diferenciadas de organização, sem deixar lugar para o autoritarismo do antigo pai provedor.
Contingências sociais, econômicas e culturais associam-se aos fatores individuais e emocionais, reorientando a organização da família. As relações internas e externas são redefinidas. As famílias procuram se reorganizar, uma vez que a dupla renda ou de dupla carreira dos casais pulveriza a figura do provedor.
Emerge, então, uma nova figura paterna, não mais ancorada no poder econômico, mas na relação afetiva.
O pai reinventa o seu papel adotando nova postura.
Esboça-se um novo perfil de pai que rejeita a cultura masculina tradicional e o comportamento frio e distante do modelo antigo.
O pai contemporâneo:
- Exercita a paternidade antes mesmo de o filho nascer. Intensifica a proximidade com a criança e com a vida dela, acompanhando a mulher às consultas, exames e cursos pré-natais, preocupa-se com a segurança material e psicológica da família.
- Sabe que a criança necessita do par conjugal adulto para construir dentro de si a imagem positiva das trocas afetivas e da convivência, e que essa só se dará com respeito mútuo - uma das regras fundamentais para o exercício saudável da paternidade.
- Valoriza o hábito do constante diálogo com os filhos, o que significa saber também ouvi-los, revela sem pudor seus sentimentos de fraqueza, tristeza e incerteza, é sensível e presente, mas não abandona a função de educador, impondo limites e ações disciplinares, sem receio.
- Compartilha com os filhos ideias, hábitos e interesses, mas mantém a sua identidade adulta, preservando a total noção dos limites.
- Exerce a paternidade durante toda a vida, pois ela não tem fim. Em todas as idades, o papel do pai na vida dos filhos permanece fundamental.
O declínio da função paterna:
- A intimidade sem limites e sem a clareza de papéis, proporciona um campo muito fértil para o florescimento da rivalidade entre o pai e seus filhos, comprometendo suas relações afetivas.
- Algumas vezes, o pai se ausenta da sua função formadora, para viver uma vida adolescente semelhante à dos filhos. Outras vezes há, até, uma inversão destes papéis sendo os filhos os detentores do papel adulto.
- Muitos pais, para compensar a sua ausência afetiva e concreta, permitem aos filhos comportamentos inadequados e o excesso de consumo de supérfluos.
- O conjunto de fatores acima leva, como consequência, a uma permanente insatisfação por parte dos filhos, o que resulta em: rebeldia, frustração, tédio, inoperância, fracasso escolar, sexualidade precoce, etc. e, quase diretamente, à busca desmedida por novos prazeres, com riscos como a dependência a drogas, além de outras transgressões igualmente graves.
Pai, o papel essencial:
O pai representa a possibilidade do equilíbrio regulador da capacidade do filho de investir no mundo real.
Para os filhos, a totalidade das suas experiências com o pai e com o mundo externo, orientará uma forma particular de desejar e, mais tarde, de conceber e de se relacionar com o seu próprio filho. Desta forma a paternidade se amplia e se enriquece.
Os laços amorosos que se estabelecem entre o pai e os filhos durante a vida, e que os tornam mais fortes e confiantes, mostram que ser adulto ou criança, ser pai ou filho, é algo dinâmico. Parte da personalidade de um será assimilada pelo outro.
Pai e filho: um aprende com o outro!
Autora: Elimar Jacob Salzer Rodrigues - Médica - Psiquiatra